CAVALO XUCRO
Durante as férias li o livro "A imprensa livre", de Fausto Wolff (Faustin von Wolffenbüttel). O autor descreve-se como velho, comunista, cariúcho (carioca-gaúcho), exilado (68 a 78), pobre de classe média, não religioso (cético, mas homem de fé) e verdadeiro jornalista. Já o defino como excêntrico, fanático, fantasioso, honrado e bom escritor.
Excêntrico no contumaz desvio para a política de esquerda. Fanático
pela admiração ferrenha por Karl Marx e o ódio mortal pelo
"Coiso" (o poder todo poderoso) e seus capangas nos países
explorados, não chegando, no entanto, a ser um homem-bomba. Fantasioso
por acreditar em maquiavélicas conspirações governamentais
e mercantis que até bin Laden e Saddam Russein devem duvidar (acredito
eu). E honrado por, apesar dos devaneios, ser verdadeiramente desejoso de um
mundo melhor para todos. Quanto ao bom escritor, apesar de desbocado, ... só
lendo o livro.
O fato é que adorei ler o livro desse radicalista possesso pelo igualitarismo
social. E corroboro com suas idéias a respeito da educação
falida, imprensa comprada, programação televisiva fútil
e manipuladora (tá aí o BBB-6 e todo santo domingo temos o Domingão
do xará Fausto), povo abestado, corruptibilidade do poder e decadência
da humanidade (violência, miséria e mendicância).
Mas sua apregoada solução marxista já se mostrou insípida,
inodora e incolor (não há quem queira provar, cheirar ou olhar
- já era!). E o vejo como um terminal teimoso politicamente, profissionalmente
(como jornalista de jornalão) e ideologicamente, já que no auge
dos seus 65 anos (sem oito dentes) não há mais cura ... graças
à Deus. Nada que nos indigne, por ser o Sr. Fausto um homem de brio que,
segundo ele mesmo, "criou-se como cavalo xucro: valente, e se cavalo tem
honra, a dele é a de nunca ter sido montado, de jamais terem conseguido
quebrar a sua alma".
E justamente isso me amedronta, pois, nos meus 36 anos (ainda com todos os dentes),
vejo-me também como um teimoso incorrigível. Não tenho
mais como acreditar em partidos políticos e nem tão pouco em quaisquer
dos seus representantes; seja Lula Lá II, Brizola ressuscitado, a espevitada
Heloísa Helena ou o messias da Lapa (lançado como candidato à
presidência para 2036, da sua crônica "Jesus nasceu na Lapa").
Só acredito na estupenda força do povo esclarecido e livre,
não como mera massa de manobra de falastrões (olha o Lula aí).
Mas, pelo andar da carruagem, tudo leva a crer que tal raiar do dia esteja a
anos-luz de nossa existência.
Radicalizando com o objetivo de apressar o processo da almejada justiça
social, vamos maquinar! Movido pelo meu ardor pela classe política e
inspirado pelos abomináveis terroristas, poderíamos implodir o
Congresso Nacional. A única ressalva seria planejar o intento entre terça-feira
à tarde e quinta-feira pela manhã, uma vez que tal proceder só
iria ocasionar perdas materiais nos demais dias/horários, por absoluta
falta de quórum no plenário para eliminação (ôpa
- votação - quis dizer). E, o pior de tudo seria constatar que
tal como as torres gêmeas, a imundícia do poder legislativo se
ergueria com novos discípulos aperfeiçoados por herança
genética na arte de corromper e se deixar corromper. Para não
incitar seguidores lunáticos que possam vir a gostar da idéia,
não vou falar de getom, convocações extraordinárias
ou nepotismo (não é compadre Severino?). Já deixei registrado
o meu devaneio à la Dom Quixote, depois de completamente desgastado por
essa corja.
Lamento não poder me postar como um leitor gentil. Mas apesar das dissidências
temos pontos em comum e, mesmo que não os tivéssemos, ensinamentos
e dogmas seriam repensados, cristalizando ou derretendo. Também coloco
(quem sou eu?) a educação do povo como alvo número 1 (um);
afinal "A sorte favorece a mente preparada" , dizia Louis Pasteur.
E a eliminação do "Coiso", como segundo objetivo a ser
alvejado bem na testa por um puxar de gatilho da coletividade instruída
com a verdade absoluta (caso exista?). Como disse, temos pontos em comum.
As dissidências ficam difíceis de resolver. Somos parecidos na
teimosia e na pobreza que o Sr. declarou ter, ou melhor, ser. Também
citou no seu livrou: "A verdade é que os pobres ajudam (ainda?)
os pobres e ficam mais pobres e os ricos ajudam os ricos e ficam mais ricos".
Sendo assim, faço o meu atestado de pobreza, ficando mais pobre porém
oferecendo-lhe gentilmente uma viagem só de ida para Cuba (caso aceite,
devo conseguir pagar em dez vezes - apertando o cinto). No entanto, há
uma condição! A garrafinha de uísque tem que partir daqui
seca para que o Sr. pise completamente sóbrio no "paraíso"
de Fidel e possa nos reportar com fidelidade o quanto é exeqüível
e maravilhoso o regime socialista. Ah ... outra coisa ... em troca gostaria
também de receber o seu livro "O nome de Deus", para que eu
possa rezar pelo Sr., usando o nome certo de Deus, enquanto estiveres por lá.
Caro cavalo xucro continue mandando bala, baixando a lenha e dizendo tudo o
que lhe der na telha. Apenas atente para as suposições, as colocando
como tal ou dizendo logo se tratar de pura ficção. Por fim, redobre
os cuidados com o "Coiso", pois ouvi por aí que são
extraterrestres disfarçados querendo dominar o planeta Terra (inclusive
o Brasil - acredita?).
Forro do mané Vito - Luiz Gonzaga (2,1MB.MP3) Download recomendável caso disponha de banda larga!
"Ouça qualquer um que tenha uma idéia original. Encoraje-o, não o critique. Deixe as pessoas continuarem com suas idéias". William McKnight
Mario Câmara - 03/01/2006
Complementos:
Fausto Wolff: Verdade
Como eu ia dizendo aqui no JB antes de ser rudemente interrompido por 20 anos
de ditadura militar e 20 de ditadura branca, talvez ainda haja salvação
para o Brasil. Neste meio tempo, para ficar apenas no fundamental, acabaram
com a nossa cultura, o nosso futebol e a nossa imprensa.
O povo, principalmente o carioca, sempre tão gentil, emburreceu, a classe média vive tão desesperada em sua ânsia de não descer ao inferno do proletariado que não tem tempo para outra coisa além do pobre umbigo. O último estadista, Leonel Brizola - tinha um dedo podre para escolher parceiros mas era um homem de bem - morreu.
Em seu vício pelo vício de fazer dinheiro, a televisão agoniza enquanto mostra os seres humanos como se fossem porcos em programas ao estilo de Big Brother que torturam Orwell até depois de morto. O país tem solução? Tem e precisa ser drástica, se não quisermos que, desesperado pela dor da fome, o povo desça e o resto dance. O jornalismo pode ser uma solução.
Outro dia perguntaram-me se era possível voltar a fazer do JB o melhor jornal do Brasil. Respondi que sim por dois motivos: primeiro, por causa do insípido e medíocre panorama da nossa imprensa; segundo, se recolocarmos a mocinha, a heroína, a estrela, no centro do palco. Estou me referindo à verdade. O erro dos que se propõem a entrar no ramo é imitar as grandes corporações, que só têm compromisso com o lucro e desabam sobre seu próprio peso, enquanto a maioria dos seus colunistas fala de uma vida que não viveu. Em princípio o jornal é o advogado do povo. É o advogado daquele que tem dinheiro para comprar jornal e não para comprar advogado. Os bandidos têm medo dos jornais, pois podem ser desmascarados por eles. A não ser, é claro, que os jornais sejam sócios dos bandidos, quer os privados quer os da Justiça, do Executivo e do Legislativo. O povo precisa sentir que o jornal é parcial; que está do seu lado; que não trata caricaturas de seres humanos que navegam em naves de papelão como pessoas sérias; que o jornal não admite justiça sem força e força sem justiça.
Para começar, por que não dizer a verdade? Severino, o presidente da Câmara, não é uma bizarra exceção. Exceção são os não Severinos. Severino apenas faz escancaradamente o que os senhores pomposos, elegantes e bem falantes - do poder ou não - fazem às escondidas. É isso aí. O Brasil não tem mais a cara de Carmem Miranda, mas sim a cara do Severino, que ri dos que dele riem, pois a cumplicidade é óbvia demais. Como na peça de Ionesco, tornamo-nos uma nação de rinocerontes exatamente porque não temos coragem de nos reconhecermos rinocerontes.
No Brasil encenam uma realidade para encobrir a verdade e a verdade está na nossa bandeira. O verde representa os que vivem com menos de dez reais por mês; o amarelo, os que vivem com menos de cem; o azul, os que vivem com menos de mil. E os pontos brancos são os tiranos que sendo tão poucos nos esmagam com tamanha facilidade.
Fonte: "http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2005/05/01/jorcab20050501013.html"