Intervenção Federal na Segurança Pública do Estado do RJ

Tive um “avô emprestado” (Sr. Sebastião – por parte da família da esposa), pessoa generosa em ouvir e sábia no falar, que diante de argumentos descabidos ou colocações injuriosas numa conversa, não relutava em retrucar, largando sua celebre frase: “perdestes uma boa oportunidade de ficar calado”.  O desafortunado, alvo da ralhada, literalmente, sentia-se esbofeteado no pé da orelha e ainda tinha que tolerar ser mangado por um bom tempo.

Devido a esta postura, pelo menos na presença do nono, todos se policiavam no que dizer.  Assim sendo, “muita calma e caldo de ervilha” nesta hora, tem ancião verde-oliva lendo.

Vou discorrer o assunto em epígrafe sob duas perspectivas: (i) de dentro do tabuleiro, sentindo o problema na pele (comprometido); e (ii) como mero expectador; apostando, seja contra ou a favor, pra ver o resultado (envolvido).

Já que mencionei um tabuleiro, tal como um campo de batalha, temos a sociedade brasileira como a peça mais importante do jogo de xadrez, a ser defendida a todo custo. Com o advento da Intervenção Federal tem-se a ascensão das Forças Armadas, de peão de manobra para outro patamar, cuja adequabilidade e operacionalidade ainda não temos condições de mensurar.

O fato é que diante das derrotas, sucessivas mostras de ineficácia e ineficiência, não restou alternativa, senão mudar a estratégia. Para que não tenhamos mais do mesmo, o jogo a ser jogado deverá ser outro.

Pasmo-me por ter a impressão de que passam desapercebidas algumas sinalizações, por parte das autoridades, a cerca da gravidade do “quadro clínico” da segurança pública.  Senhores, uma metástase não se resolve ministrando xarope ou pastilha de menta; muito pelo contrário, a medicação é pesada e cruel, sujeita o organismo a significativos efeitos colaterais e, ainda, para garantir a efetividade do tratamento, é fortemente recomendável que haja a extirpação das células cancerígenas para evitar rebote. Mais claro… só desenhando!

Os efeitos colaterais não serão brincadeira, trazendo sérias implicações, inclusive, no sentido de defender a sociedade de si própria. O combate ao tráfico de drogas, obviamente, impactará o “fiel” mercado consumidor; dificultando a vida daquela galerinha que busca um baseado no pé do morro. As necessárias barreiras policiais para separar o “joio do trigo”, indubitavelmente, dificultarão a movimentação e mobilidade da população. “Cacete” (xingamento mesmo), eu disse que teria calma: como atuar como polícia sem ter poder de polícia? E, é claro, resgatar o poder de mando e autoridade exige algumas medidas drásticas e coercitivas; em contraponto a esta atual permissividade desmedida e impunidade irrestrita, que faz brotar gerações sem noções de respeito e limite.

As Forças Armadas assumirão o papel de protagonistas num velho cenário, tendo credenciais da pacificação do Haiti e das operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem). Infelizmente, apesar da vontade férrea dos militares para cumprir a missão, a complexidade da situação e a falta de comprometimento de importantes atores causa-me incredulidade. Lado bom e ruim da história, o povo brasileiro não sabe o que é guerra e perde batalhas, até mesmo, ao enfrentar mosquitos.

Pois então, começo a segunda perspectiva, referindo-me as autoridades envolvidas; observem bem, envolvidas. Faltarão lavabos para os inúmeros Pôncios Pilatos nesta história. Há enorme escassez, para não dizer que não existem mais valores pétreos em nossa sociedade, dentre os quais: coragem moral, sentimento pátrio e interesse pelo próximo. Pelo amor de Deus, os próximos não são os “coitadinhos dos marginais”, segundo alguns sem noção, pobres vítimas da sociedade.

Serão necessárias adequações estruturais – leis e processos (mudanças e transformações), participação da sociedade na luta (colaboração e compreensão) e sincero senso do bem comum (sacrifícios e recursos). Com este bando de governantes que colocamos no poder, não há condições de apostar em tudo isso, pela mais absoluta falta de bons exemplos dos “mandatários”. Devido aos maus antecedentes desse balaio de gatunos, indiferente que sejam de direita ou esquerda, cabe desconfiar de uma mirabolante manobra política.

Objetivamente, para concluir, rezo fervorosamente pela “ordem e progresso”, porém, sem aprofundar muito, não acredito que sejamos merecedores deste milagre. Neste desfecho, gostaria muito de estar equivocado e fazer jus a reprimenda do vô Sebastião.


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