Emburrecimento?
Bate em nossa porta uma avalanche de ferramentas. Na verdade, a pobre porta mostra-se incapaz de fazer frente a pressão e somos varridos pela enxurrada tecnológica. Tudo depende da dosagem, do equilíbrio e de conseguir discenir, até que ponto é bom ou ruim para cada um de nós.
Sou da geração X (entre 50 e 60), meus filhos seriam geração Y (millennials) e já nos atropelando, estão na pista as gerações Z, Alfa e Beta. Ainda bem que as novas gerações estão chegando junto, pois se assim não fosse, seria o sinal execrável de que teríamos feito uma m3rd4 homérica.
Mas quero falar de conhecimento. Pra começo de conversa, conhecimento não se constrói num estalar de dedos. E sim, diante do cenário atual caótico, é claro que há demanda por mudanças, muitas vezes radicais. O mundo analógico foi engolido pelo digital e uma gama de utilitários (documentos, dicionário, mapas, relógio, jornal, livros, filmes) ficaram pelo caminho ou, melhor, adquiriram nova roupagem. E estas metamorfoses não se deram só no campo do que pode ser materializado, se aprofundaram no âmago do pensamento humano.
É hilário perguntar a um jovem quanto é 9×7? É uma afronta, também, esperar que saibam ler os ponteiros de um relógio analógico. Agora a pergunta que vale a pena, isto importa? É claro que não! A calculadora que se tem a mão, responderá não somente a simplória conta 9×7 com perfeição absoluta, como também toda sorte de cálculos muitíssimos mais complexos. Mas pelo amor de Deus, que a pergunta não os pegue sem o celular para resolver, o qual chamo carinhosamente de “muleta da ignorância”.
Como deve ser bom termos uma muleta para nos socorrer nos momentos de aperto. Mas será que para todos os momentos realmente precisamos da muleta, fazendo-nos assumir o papel de perpetuamente mancos. Deixe-me retomar uma expressão perigosa, já utilizada no texto: “perfeição absoluta”. O resultado de uma calculadora (zeros e uns) até pode ser “interpretado” desta forma. Mas, pelo menos por enquanto, jamais a resposta cuspida por um assistente IA (ou superinteligência, à la Trump) pode ficar isenta de uma meticulosa análise racional. Em obsolescência, lembram da importância da prova dos nove? A preguiça pra parar, estudar e pensar, tá grande. Um processo como “senso crítico” para rodar na caixola acima do pescoço, dá trabalho.
Somos privilegiados pelo volume de informações disponíveis de forma instantânea, razão pelo qual – mais do que nunca – precisamos de filtros para poder separar e sorver o conhecimento. Senão, a informação trata-se de mero volume de dados brutos, onde tem de tudo; dando margem a velha máxima: “entra lixo e sai lixo”. Mas só se vê pressa e tomada de atalhos, sem a primazia e o cuidado com a arte de peneirar para obter o suprassumo. Tudo muito superficial e grosseiro … hop, hop, hop!
Emburrecimento, acredito que não; pois meto fé na evolução da nossa espécie. Porém, talvez, estejamos caindo no encantamento tecnonológico como se fosse um canto da sereia e perdendo o que há de mais essencial da condição humana: a capacidade de pensar, agir e se guiar, por si próprio. De minha parte, prefiro deixar a muleta de lado (eventualmente, até posso usá-la); mas na medida do possível, prefiro dar maiores chances ao meu cérebro de se automodelar, ao invés de deixá-lo ser algoritmizado.

“Lembre-se, você não é todo mundo!”
– Mãe