O piloto sumiu

Tenha fé no algoritmo!

Sou um pouco mais rodado e se há algum benefício nisto, destaco já ter passado por algumas ondas tecnológicas turbulentas, tendo levado uns caixotes homéricos. A onda da vez é Inteligência Artificial (IA) e até a ordinária geladeira que recentemente comprei diz – no seu manual – ser dotada de IA [1]; por conta de uma programação de contagem regressiva de dias para acompanhar a validade de alguns mantimentos (leite já aberto, fruta delicada, etc). Não interessa se a coisa é ou não é; o que importa é a propaganda ser a alma do negócio. Na cara de pau!

De tanto observar a enxurrada de ferramentas ditas IA, fui “imaginando” a criação de uma nova camada do modelo OSI. Desculpe-me se não lhe é algo familiar, mas que tal nivelarmos conhecimento? O objetivo precípuo das 7 (sete) camadas existentes é: (i) promover a interoperabilidade de diferentes hardware e software; (ii) dividir a complexidade em camadas distintas; e (iii) padronizar os protocolos. É, ao invés de explicar estou complicando. Pois então, vamos partir pro popular.

Algo que todo motorista faz sem precisar pensar. Ao exterçar o volante do carro numa direção tem-se, em consequência, a roda dianteira virada na respectiva direção, grau e intensidade. Porém, dentre a ação e a reação, há as camadas (componentes) do sistema de direção de um veículo:

  • Volante: o volante é conectado à coluna de direção por meio de um cubo e de articulações. Quando o motorista gira o volante, ele transmite o movimento para a coluna de direção.
  • Coluna de direção: é um tubo que conecta o volante à caixa de direção. Permite que o volante seja ajustado para cima, para baixo e para frente, para se adequar à altura do motorista.
  • Caixa de direção: é o “cérebro” do sistema de direção, em formato cilíndrico. A caixa converte o movimento rotativo do volante em movimento linear, transmitido para as rodas. Existem dois tipos principais de caixas de direção: mecânica e assistida (hidráulica, eletro-hidráulica e elétrica).
  • Barra de direção: é a barra que liga a caixa de direção aos terminais de direção, para transmitir o movimento linear da caixa de direção para as rodas.
  • Terminais de direção: são as articulações que ligam a barra de direção a coluna do amortecedor ou manga de eixo, dependendo do sistema. Os terminais permitem que as rodas girem para os lados.
  • Rodas e pneus: trata-se do aro, tala, alinhamento, balanceamento, calibragem, ranhuras para aderência (evitar aquaplanagem) e tração no terreno.

Tudo bem, deram 6 (seis) componentes mas imaginem como sendo as sete camadas (stack) do modelo OSI. A ideia desta estruturação em camadas é que elas interajam umas com as outras mas, mesmo assim, que se mantenham independentes umas das outras; ou seja, se eu trocar uma – rosca sem fim – na caixa de direção, as camadas adjacentes não deverão ter nada a ver com isto. No linguajar do computês, isto significa baixo acoplamento e alta coesão.

As sete camadas do modelo OSI são: (1) física; (2) enlace; (3) rede; (4) transporte; (5) sessão; (6) apresentação; e (7) aplicação.

Tal como o volante … os softwares da camada de aplicação todos nós conhecemos. Vou citar alguns poucos: pacote Office (Word, Excel, PowerPoint), Photoshop e/ou Outlook. É claro e é este o objetivo, todos estamos pouco nos lixando para o que está embaixo da camada de aplicação (sob o capô). No entanto, precisávamos saber o básico da ferramenta de aplicação (volante) e dominar o conteúdo (ter sentimento) do que seria apresentado/desenhado/redigido.

A onda atual isenta da necessidade de saber lidar com a aplicação (digamos, um PowerPoint da vida) e, ainda por cima, a ferramenta IA se apresenta “qualificada” para propor o conteúdo a ser “ministrado”, baseado num base/banco de dados/big data (BD). “Genspark AI: prepara pra mim uma série de slides que ensina como pilotar um avião”. Mais curto que coice de porco.

De fato, estamos com o cérebro sendo desacoplado e o processamento do abissal BD vem assumindo o comando. IA tá assumindo a planilha. Assumindo a redação do TCC ou da Ata de Reunião. Assumindo as “respostas” ao e-Mail ou ao Chat. Assumindo as “consultas médicas”[2]. Assumindo a criatividade no marketing.

Não precisa esquentar a moringa com o advento da IA [camada 8 (oito) do modelo OSI] … só apertemos os cintos, pois o piloto sumiu!?

 

Registro de provocações nas entrelinhas, mordiscando bem miudinho pra ninguém se zangar:

[1]
Dizem que existe: Ferramenta IA, Plataforma IA, Artefato IA, Agente de IA, Portais de IA, Arcabouço IA, Oráculo IA … o que você pensar está acompanhado das duas letrinhas IA – Inteligência Artificial. Pra mim IA não é problema, o que pega é a burrice natural, incapaz de filtrar.
[2]
Empreguei o verbo ASSUMIR por conta do encaixe ao contexto do artigo. Mas se tem uma coisa que a IA não tem condições é de assumir responsabilidade. É impraticável numa consulta por meio do “Doctoralia” acontecer uma auscuta pulmonar, uma auscuta cardíaca, uma palpação abdminal ou o olhar clínico (sentimento) de um médico profissional. Portanto, realmente desejo-lhe (aqui, não me incluo como paciente) sorte ao processar do algoritmo para diagnosticá-lo e saiba estar solito, correndo todo risco relativo a sua própria saúde. Sua vida. Seu negócio. Enfim, seja feliz!

 


“O fato de você não gostar do Piloto, não te dá direito de torcer para o avião cair. Você também está a bordo.”
– Dalila Maitê Rosa Sena

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