Charges “clácidas”

Nem Sancho Pança aguentaria...

Nem Sancho Pança aguentaria…

Nesta escrita, vou pegar bem de leve e deixar as palavras, simplesmente, fluírem. Sejam bentas ou putrefatas, uma coisa é certa, tal como o tempo, as palavras escorrem por nossas mãos e ninguém mais segura.

De infindáveis mãos, passam por nossas vistas as charges das redes sociais. São ““todas”” (todas é forte) maravilhosas no quesito criatividade, apesar de muitas vezes pecarem nos quesitos  respeito e responsabilidade.

Mas, cá pra nós, esse negócio de ser respeitoso e responsável está démodé, fadado ao ostracismo moral e cívico, inclusive pelas autoridades máximas. V.Exas … “data maxima venia” se revezam nas baixarias e ofensas veladas, só faltando as vias de fato. O povo “adooora um barraco” e a imprensa só faz botar lenha. Eita Brasilzão!

Tenho duas preciosidades para compartilhar.

A primeira, trata-se de um filmete que mostra várias hienas atacando um “indefeso” leão que, em razão da desvantagem numérica, leva uma surra homérica. Até aparecer outro coligado em socorro ao felino, equilibrando a briga. Do ponto-de-vista que me fora apresentado, o “pobre” rei-leão representava o presidente, pro lado das hienas coloca-se todo resto. Será? Minha opinião: coitadinho … sei não!?

Noutro filmete muda-se uma metade do mundo animal. Duas “gazelas”, sejam machos ou fêmeas, reciprocamente cegam-se os sentidos por estarem se engalfinhando pelos chifres, sem aperceberem a aproximação do verdadeiro algoz as suas vidas; um vivaz leão que angariou um almoço “facinho-facinho”. Não preciso esclarecer quem são os bisonhos, por conta das brigas, incapazes de enxergar a um palmo.

E daí … também quero brincar a imaginação! Não sei fazer filmetes ou desenhos caricatos, mas vamos nos virar em três parágrafos, talvez quatro, valendo-nos dos clássicos. Esta charge visa registrar uma chispa do destempero, conflitos e patetices do Dom Quixote de La Pátria; mas é na fidalguia, abnegação e ingenuidade de “Sancho Pança” que me deleito. Na versão tupiniquim, mesmo diante da notória ausência de juízo (sem justiça) e plena insanidade (sem equilíbrio emocional) do “artilheiro errante” montado ao seu Rocinante de duas rodas, esperava-se que seus escudeiros permanecessem ali: a lhe guardar as costas!

Todavia, na atual releitura da estória de Cervantes, ser fiel e leal não significou ser capacho ou “pau-mandado”. Vivemos a nos reescrever e, continuamente, criam-se na vida real charges “clácidas” (menos clássicas e mais ácidas), com coadjuvantes de personalidade marcante e arraigados valores morais que não se inebriam na condição de caronas: General Santos Cruz, Henrique Mandetta, Sérgio Moro, Nelson Teich, Gen Rêgo Barros ou Salim Mattar (ambos últimos, do 2º escalão de combate). Normal esta lista só crescer …

Nosso artilheiro de alcunha Jair Messias Bolsonaro se encaixa no personagem de ficção com tamanha perfeição que não resta margem para traços de caricatura. “Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”; portanto, desbrava uma cruzada completamente liberto de compromisso com azimute pré-estabelecido (Plano de Governo e filiação partidária, pra quê?). Sua lança afiada serve para ferir com palavras, doa a quem doer; na certeza que bastará desdizer a empunhadura da própria língua venenosa de víbora. Já o escudo é artigo irrisório para o “atleta”, uma vez que deliberadamente declina de capacete, máscara ou obediência a quaisquer protocolos. Somente destoa quanto ao amor platônico à Dulcineia d’El Toboso substituído pelo ódio mortal ao “sapo barbudo”; amor e ódio, meras faces da mesma moeda. E, por fim, alucinadamente, viva a República Federativa do Brasil com seus imensos desafios e ainda, como se já não bastasse, os moinhos de vento presidenciais.

 

“À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo.” 

– Dom Quixote

2 comentários

  1. Mario Câmara em 18 de janeiro de 2022 às 20:51

    Memento mori
    ”A população, como árbitro supremo da atividade política, será obrigada a demarcar um rio Rubicão cuja ilegal transposição por um governante piromaníaco será rigorosamente punida pela sociedade”.
    Legiões acampadas. Entusiasmo nas centúrias extasiadas pela vitória. Estandartes tomados aos inimigos são alçados ao vento, troféus das épicas conquistas. O general romano atravessa o lendário rio Rubicão. Aproxima-se calmamente das portas da Cidade Eterna. Vai ao encontro dos aplausos da plebe rude e ignara, e do reconhecimento dos nobres no Senado. Faz-se acompanhar apenas de uma pequena guarda e de escravos cuja missão é sussurrar incessantemente aos seus ouvidos vitoriosos: “Memento Mori!” — lembra-te que és mortal!
    O escravo que se coloca ao lado do galardoado chefe, o faz recordar-se de sua natureza humana. A ovação de autoridades, de gente crédula e de muitos aduladores, poderá toldar-lhe o senso de realidade. Infelizmente, nos deparamos hoje com posturas que ofendem àqueles costumes romanos. Os líderes atuais, após alcançarem suas vitórias nos coliseus eleitorais, são tragados pelos comentários babosos dos que o cercam ou pelas demonstrações alucinadas de seguidores de ocasião.
    É doloroso perceber que os projetos apresentados nas campanhas eleitorais, com vistas a convencer-nos a depositar nosso voto nas urnas eletrônicas, são meras peças publicitárias, talhadas para aquele momento. Valem tanto quanto uma nota de sete reais.
    Tão logo o mandato se inicia, aqueles planos são paulatinamente esquecidos diante das dificuldades políticas por implementá-los ou mesmo por outros mesquinhos interesses. Os assessores leais — escravos modernos — que sussurram os conselhos de humildade e bom senso aos eleitos chegam a ficar roucos.
    Alguns deixam de ser respeitados. Outros, abandonados ao longo do caminho, feridos pelas intrigas palacianas. O restante, por sobrevivência, assume uma confortável mudez. São esses, seguidores subservientes que não praticam, por interesses pessoais, a discordância leal.
    Entendam a discordância leal, um conceito vigente em forças armadas profissionais, como a ação verbal bem pensada e bem-intencionada, às vezes contrária aos pensamentos em voga, para ajudar um líder a cumprir sua missão com sucesso.
    A autoridade muito rapidamente incorpora a crença de ter sido alçada ao olimpo por decisão divina, razão pela qual não precisa e não quer escutar as vaias. Não aceita ser contradita. Basta-se a si mesmo. Sua audição seletiva acolhe apenas as palmas. A soberba lhe cai como veste. Vê-se sempre como o vencedor na batalha de Zama, nunca como o derrotado na batalha de Canas.
    Infelizmente, o poder inebria, corrompe e destrói! E se não há mais escravos discordantes leais a cochichar: “Lembra-te que és mortal”, a estabilidade política do império está sob risco.
    As demais instituições dessa república — parte da tríade do poder — precisarão, então, blindar-se contra os atos indecorosos, desalinhados dos interesses da sociedade, que advirão como decisões do “imperador imortal”. Deverão ser firmes, não recuar diante de pressões. A imprensa, sempre ela, deverá fortalecer-se na ética para o cumprimento de seu papel de informar, esclarecendo à população os pontos de fragilidade e os de potencialidade nos atos do César.
    A população, como árbitro supremo da atividade política, será obrigada a demarcar um rio Rubicão cuja ilegal transposição por um governante piromaníaco será rigorosamente punida pela sociedade. Por fim, assumindo o papel de escravo romano, ela deverá sussurrar aos ouvidos dos políticos que lhes mereceram seu voto: — “Lembra-te da próxima eleição!”
    Paz e bem!

    * General de Divisão do Exército Brasileiro. Doutor em ciências militares, foi o porta-voz da Presidência da República, nomeado pelo governo Jair Bolsonaro.

  2. Mario Câmara em 9 de agosto de 2021 às 13:35

    “Dá o tapa e esconde a mão, quando interpelado, exclama: nada fiz! Continua e vai adiante, e a cada negação finge sua indignação. Ao arrancar uma reação, consegue o que quer, então brada à todos: não disse ser eu a vítima e ele o vilão?” Fica como tópico para um próximo artigo, pois ainda não concluí qual a característica – menos pior – do presidente se sobressai: (i) falta de caráter ou (ii) fraqueza moral?

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