Será que um robô irá me substituir?

Robô, que coisa mais bonitinha!

IA, IA, IA … só se fala nisto! Acredito que a insistência no assunto tem fundamento no faturamento de uma nova indústria de lucro. Infelizmente, não credito a proliferação do termo IA ao seu auge, finalmente alcançado; porém ao puro apelo de marketing que a “tecnologia” – dita como IA – pode agregar ($) aos diversos produtos ou serviços. Por conta disto: RPA; IHM; automação; meta verso; reconhecimento facial; cálculo estatístico; filtro digital; manipulação de áudio, imagens e vídeos; “grepar” documentos; chatbots (“tem ares de IA”) … enfim, tudo que abarca algum código (algoritmo) está indiscriminadamente levando a alcunha de Inteligência Artificial. Não sendo anosmático ou cabeçudo, tá legal, alguns casos podem até ter um certo cheiro de IA.

Vou logo chutar o pau da barraca e dar nome aos bois.

A Alexa (Siri, Cortana, Bixby são netas da “terapeuta Eliza”, tá … avó emprestada) são formidáveis e representaram um salto no que diz respeito a interface homem-máquina. Em vez de ter um controle remoto, teclado, arrastar o mouse ou mover o dedinho sobre uma tela; há um baita algoritmo que reconhece e interpreta a voz – captada por um receptor – e executa o comando emanado, desde que factível. Que chique: “Alexa, por favor, toca ‘As Razões do Boca Braba’ de João de Almeida Neto” (veja bem, o “por favor”, é só pra angariar pompa e circunstância).

Outra situação interessante. Numa empresa, lá se tem um histórico de Atas de Reuniões de 50 anos. Caramba, mais uma vez, utilizar um algoritmo para “grepar” os zilhões de documentos a procura da ocorrência dos termos, por exemplo, “parceria comercial” ou “joint venture” nos últimos 7 anos da empresa é porreta, por conta da facilidade e agilidade na pesquisa. Convenhamos, poderia muito bem ser chamado de automação de processos por robôs, mas não!

Dia desses estava lendo as especificações de um dispositivo IoT que após coletar as medições de praxe do ambiente (temperatura, umidade e pressão atmosférica) aplicava, na borda, um filtro digital (Kalman) para eliminar os ruídos das sucessivas leituras. Muito apropriado ao projeto, mas adivinha o nome propalado a belezura, com recurso de filtragem: “smart device” com recursos de IA.

Até minha mãe (querida), com seus setenta e pouco, comentou que em seu Tablet dispunha de revistas com artigos do seu segmento religioso que vinculava um parágrafo ao correspondente versículo bíblico, o qual seria mostrado na integra, numa janela pop-up, ao clicar de dedo. Para ela, aquele hyperlink era a coisa mais formidável do mundo e, por acaso, foi “soprado” aos seus ouvidos como um dos milagres da IA. Aonde?

Estes poucos casos citados são vero e caso atendam as necessidades são realmente melhorias fantásticas. Agora chamar tudo, todos e quaisquer códigos – que apareçam por aí – de IA é tão feio (amenizando, só pra manter a elegância). Costumo brincar: “posso não saber o que é IA mas sigo minha intuição para discernir aquilo que não se trata de IA”, sendo apenas um engodo publicitário.

Será que um robô irá me substituir? [1] É ruim, hein; nem quando chegar a IA de verdade, com todo o seu esplendor, imprevisibilidade e maturidade cognitiva [2]. Acho que ainda vai longe; sendo crIAr (sentir, pensar e agir), por enquanto, exclusivo do domínio humano. O homem cria, a máquina gera [3] um resultado ipsis litteris, seguindo a lógica determinada num algoritmo (criado pelo homem).

Nem céu, nem inferno; vejo gente vislumbrada com avanços inverossímeis e gente desesperada com teorias catastróficas (Síndrome Skynet), melhor seria um pouco de refutação sofista: “inteligência artificial dificilmente substituirá a criatividade humana; visivelmente, substituirá e está substituindo tarefas enfadonhas e repetitivas”. Até o robô, morô … meu bandido corazón!

 

[1] Reagi a esta provocação inteligente (Lauren Aita) pois julguei bastante objetiva e direta a pergunta. Mas confesso, cansei deste assunto; de agora em diante, chega de ser boca braba, soy bandido corazón. “Cada cabeça, uma sentença”, junto com sua capacidade de senso crítico, discernimento e/ou enxergar interesses escusos.
[2] “Inteligência Artificial” foi um termo cunhado de extrema infelicidade, uma vez que sugere – hipocritamente – capacidade intelectual e emocional por parte da máquina. Apesar do exagerado frisson, progressivamente, IA está engatinhando. A questão que me intriga é qual patamar de responsabilidade será assumido: (i) seremos tão somente mercado consumidor (embasbacados) de ferramentas que lembram o pacote Office; ou (ii) trabalharemos para desenvolver suas entranhas (“neurônios digitais”)? Por enquanto, minha opinião, estamos deixando-nos ludibriar por falácias, “pecando” – por comodidade proposital – até na mera classificação das tecnologias.
[3] Ótimo, gerar (entrada, processamento e saída) um resultado. Neste escopo, GERAR significa processar, de acordo com o que está dentro da “caixa” (linhas de comandos no bloco de processamento). Já CRIAR (sentir, pensar e agir), em especial quando há conteúdo fluindo, ocasiona a explosão da caixa  😉 . É sério que preciso escolher dentre: (a) genial ou (b) artificial.
[*] O meu fel político não presta; talvez, as urnas eletrônicas não emplacaram na opinião pública (para alguns) pois não as “venderam” como “possuídas” de IA. Vê se pode? As pessoas são capazes de acreditar em altas elocubrações e mirabolantes cálculos “quânticos” realizados pelas máquinas (computadores), agora se for incumbi-la de contar (1, 2, 3, etecetera), o que desde nascença ela faz de melhor, aí não tem serventia!?  “Gentem” … é hilário e revelador ver tamanha contradição.

“A inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer.”

  • Jean Piaget

Words can be like X-rays, if you use them properly—they’ll go through anything. You read and you’re pierced.

– Aldous Huxley, Brave New World

3 comentários

  1. Mario Câmara em 7 de março de 2024 às 12:11

    Caso sirva de ânimo (e precisa?) para os mais entusiastas desta “IA” merchandising … não há como escapar da curva de aceitação, as pessoas são heterogêneas e UM VIVA a diversidade de pensamentos, que consiste na ebulição da inteligência humana a 40ºC (purgatório da beleza e do caos).

  2. Mario Câmara em 6 de março de 2024 às 16:09

    “…
    Pode parecer polêmico, mas a impressão que tenho é que, hoje, mais do que ser uma empresa inovadora, que está sempre à frente da concorrência, é preciso parecer ser esta empresa. E as organizações viram na Inteligência Artificial uma forma de sustentar essa imagem. E isso não é uma crítica à IA, de forma alguma, mas um convite à reflexão sobre o uso adequado da tecnologia.

    Pesquisar, desenvolver novos produtos e testar novas aplicações faz parte do processo de inovação de uma empresa e é essencial para a sustentabilidade de qualquer negócio. O meu alerta aqui é para entender se, de fato, é a inteligência artificial que vai ser a responsável por virar a chave, aumentar a eficiência e até mesmo levar a companhia para outros mercados, antes de mudar todo o seu planejamento.”
    FONTE: Fernando Riva é co-CEO da Iteris.

  3. Mario Câmara em 1 de março de 2024 às 11:43


    “Há dois tipos de pessoas: aquelas que fazem o trabalho e aquelas que ficam com o crédito. Tente estar no primeiro grupo: há menos competição lá.” – Indira Gandhi
    Presto atenção! Tá cheio de gente assim (“dourando a pílula”), falando de IA.

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