Elas ocuparam seus devidos lugares

C2 com empatia e simpatia
Dentro da programação da 4ª Mostra(opens in new tab) de Ciência, Tecnologia e Inovação da UCS, tive o prazer de assistir ao bate-papo de uma mesa-redonda (“sofá-redondo”), repleta de empreendedoras que estão transformando negócios familiares. Seria deselegante não revelar os nomes das guerreiras e suas marcas, que são como bandeiras que as acompanham: Cíntia Buzin (Metalúrgica), Suélen Biazoli (Biamar Malhas), Alessandra Muraro (Bebidas Risso e Casa Eva) e Luciana Marcarini (Murbi).
Conforme já era de se esperar, relataram suas lutas e força de vontade férrea para conquistarem os espaços que lhe pertenciam por direito, diante de uma sociedade tão fortemente patriarcal. Mas seus relatos enlaçaram-me por completo quando a Cíntia citou o modo de liderença por Comando e Controle (C2), da qual sou cria: “Cadete! Ides comandar, aprendei a obedecer.” Rebobinou na minha cabeça causos da caserna.
Toda mudança ou transformação, não tem jeito, demanda tempo para acomodação dos comportamentos humanos. Imaginem o impacto do ingresso do segmento feminino numa instituição que, desde os bancos escolares (Colégios Militares), sempre foi plenamente máscula; salvo Maria Quitéria (que se infiltrou nas fileiras do Exército Brasileiro disfarçada de homem) e as enfermeiras na 2ª GM.
A cerca de 30 e poucos anos as portas dos quartéis começaram a se abrir para o gênero feminino e as instalações físicas precisaram ser readequadas, já que não dispunham de alojamentos e nem banheiros adequados. Mas isto não era nada diante das readequações comportamentais do corpo de tropa. Palavrões, maus costumes[1] e desleixos tornaram-se motivos de auto-vergonha e, aos poucos, foram saindo de cena e humanizando o ambiente militar. Tá … não se engane em pensar que a integração foi fácil e de imediato, até chegar ao ponto de equilíbio; aliás, melhor dizer faixa de adequação em constante mutação dos limiares, de um lado e do outro.
Mas quero descrever uma passagem inusitada e real. Em pleno Quartel General do Comando Militar do Sul, por ocasião de um intenso temporal, houve um incidente no telhado (entupimento da calha) que redundou numa “cachoeira” pela junta de dilatação; por azar, situada exatamente sobre o data center do Quartel. Diante da situação, foram tomadas as medidas cabíveis (corte de energia, lonas, atuação na causa raiz, etc) mas o estrago já tava feito. Switchs, servidores, fontes e demais equipamentos sensíveis e caríssimos ensopados de água. Na oficina de TI dispúnhamos de somente dois sopradores térmicos para secar as placas internas dos equipamentos, o que não daria conta diante do volume de trabalho (linha de racks). Daí … fomos aprovisionados pelas militares que nos emprestaram seus secadores de cabelo, que impunhávamos como armas no cumprimento da missão. Depois de muita reza, “calor forçado” e religar os equipamentos, o prejuízo e o tempo de inoperância foi mínimo; muito graças a contribuição do segmento feminino. E, é claro, olho na calha!
No entanto, este episódio nos serviu para colocarmos a mão na consciência quanto a uma demanda feminina, cuja falta de empatia, não nos permitia alcançar de início. Também relacionado a secagem. Nas organizações militares é usual destinar a primeira hora do expediente à atividades físicas, o que torna imperativo o subsequente banho. O regulamento amarra o comprimento do cabelo masculino a máquina nº 2 ou 3 e tasca-lhes a boina em cima sem problema. Já as mulheres, após o banho, mesmo após secarem o cabelo – sempre no hop -, a umidade que se mantinha, agravado pelo uso de coque e boina, favoreciam a proliferação de fungos e bactérias capilares. Foi um sufoco pegar o regulamento e fazer vista grossa, dispensando-se o coque durante o turno da manhã.
Então, toda esta prosa foi tão somente para mostrar sob outra ótica, o quanto crescemos, amadurecemos e aprendemos com tantas mulheres(opens in new tab): corajosas e perfeccionistas (qualidade) como a Su; ecléticas e versáteis como a Alessandra e suas irmãs; poderosas e generosas como a Cíntia; e perspicazes e focadas como a Luciana. E, por fim, orgulhosamente, as militares que foram as pioneiras no ingresso ao EB, agora estão galgando aos mais altos postos do generalato nas Forças Armadas e assumindo – gradativamente – todas as posições que elas quiserem e fizerem por merecer. Agradeço pela oportunidade de nos mostrarem suas fortalezas e nos inspirarem com suas trajetórias profissionais e de vida. Obrigado!
Registro de provocações nas entrelinhas, mordiscando bem miudinho pra ninguém se zangar:
- [1]
- Noutros tempos os quartéis dispunham de espaços que mais pareciam uma borracharia bem bagaceira.
- [*]
- Paralelo à 4ª Mostra rolava o XXXIV Encontro de Jovens Pesquisadores. Tenho minhas áreas de afinidade e pesquisei (IoT, LoRa, LPWAN, Smart) por trabalhos de interesse. Bem, “estação meteorológica em hortas urbanas” caiu dentro do escantilhão. No papel de audiência fiquei devidamente calado, mas bem curioso/atônito: (i) ESP-32 trata-se de um microcontrolador dual core, sendo um desperdício – pois encarece o produto – utilizar dois ESP-32 numa estação; (ii) bem, nem toda formatação de dados deve ser JSON (muito prolixo); logo então, há uma razão de ser (low-bandwidth) para o uso de payload binário nos dispositivos Sirros IoT; e (iii) de certo há alguma explicação mas não entendi o motivo do enjaulamento na rampa do “Bloco J”. Independente destes pontos curiosos, parabéns ao Enzo.

“Responsabilidade e competência não têm gênero. Acreditem em si mesmas. É um momento de muita emoção, foi difícil me segurar. Compartilho com todas as mulheres do Brasil.”