Guerra Fria II

A guerra dos chips
Sou desastroso para contar piada e dizemos por aí que piada de norte-americano é sem sal. Talvez, o problema não esteja na piada mas em quem a interpreta. Assim sendo, ousarei fazer uma piada com os norte-americanos.
“- Como os norte-americanos esbravejam em russo?
– Sputnik!
– Como norte-americanos esbravejam em chinês?
– Huawei!
– Como estadunidenses esbravejam em persa?
– Ormuz!
– Como brasileiro esbraveja em alemão?
– 7 x 1!”
Em especial o último trecho, a piada não tem a menor graça – eu avisei ser inábil 🥸 – fato é que as superpotências no tabuleiro da Guerra Fria rocaram de cadeiras. A Rússia comeu mosca e a China avançou logo duas casas. E, mais uma vez, uma pequena ilha é o principal ponto de discórdia com potencial para fazer eclodir uma crise sem precendente. Outrora, Cuba por ter permitido acolher misséis da União Soviética capazes de bater na porta do vizinho gigante. Hoje, Taiwan por sabiamente ter se permitido acolher a fabricação de chips capazes de fazer o mundo girar ao contrário.
Falar tecnicamente de semicondutores é algo surreal. Provavelmente, você já se sentiu insignificante quando os astrônomos falam das medidas hediondas envolvidas na descrição do universo observável. São tantos zero que os números tendem ao infinito, tudo tendo como referência anos-luz, que por si só já é uma loucura. Agora, vamos no sentido contrário, expoente negativado. Já viram em alguma feira aqueles artistas capazes de desenhar alguma gravura num grão de arroz? Legal, vamos dar um emotivo e merecido: óhhh! Agora imagina “desenhar” uma cidade do tamanho de Santa Rita do Sapucaí – MG[1] numa ínfima pastilha de silício (“tela branca”), onde cada moradia corresponderia a um transistor FinFET na dimensão de 14 nm (EUV: 14 x 10-9 m). Bem, posso estar sendo um pouquinho pessimista na metáfora e a densidade corresponder, na verdade (olha o GAAFET aí), a desenhar a Grande São Paulo numa pastilha.
Fato é que pra se chegar neste estado da arte na fabricação de chips demanda: estratosféricos recursos (U$ 20-100 Bi); uma cadeia de ferramental-litografia/suprimento estrategicamente proibitiva (“interdependência armada”); e um cabedal de conhecimento e expertises, incluso projetos, inalcançável para muitos países, mesmo a médio ou longo prazo. E, quero ver agora sua perspicácia: adivinha aonde ficam estas poderosas fábricas: TSMC (Taiwan). Tá bom, não ficam todas concentradas em Taiwan, mas que tal saírem de lá 37%[2] dos chips lógicos “mais bombados” do mundo. Só pra conhecimento, há chips do tipo lógico (CPU, GPU e NPU), de memória (RAM, ROM, Flash, SSD) e de sinais (DSP, ASICs). Não consegui 🤤 classificar os FPGAs, deixo esta tarefa contigo.
Vamos ao que interessa, o que o Brasil tem a ver com esta confusão? Estamos a ano-luz atrás das grandes potencias mundiais, atuando no chamado “back-end” (montagem, encapsulamento e testes) e algo incipiente no design (projetos de chips). Há um programa por parte do Governo Federal (Brasil Semicon), sociedade SBMicro e já ouvi falar em iniciativas como CEITEC e HT Micron, ambas na região sul[3]. Em suma, pode ficar tranquilo que estamos muito longe de ter uma Huawei ou algo semelhante para incomodar os “States”.
Não adianta ficar brabo com a minha opinião e, caso divirja, respeito a sua posição. Mas nesta corrida estamos pouca coisa melhores que a 500 anos atrás, evoluindo para barganhar toneladas de terras-raras por um wafer de silício (qualquer semelhança com o espelho do português é mera coincidência). Os chips são os corações e as almas dos datacenters, necessários para rodar as IA de verdade[4]. Enquanto rola a Guerra dos Chips (que ousei chamar de Guerra Fria II), achamo-nos poderosamente armados com arcos e flechas, agindo como “Magdas”[5] ao perguntar futilidades ao ChatGPT.
Registro de provocações nas entrelinhas, mordiscando bem miudinho pra ninguém se zangar:
- [1]
- Cito SRS por conta da cidade sediar a INATEL e participar de iniciativas, tais como: CI Digital. Também estão nesta vibe: UNIFEI, HBR, UEMA, CEPEDI. E, noutra pegada, Unisinos.
- [2]
- É interessante citar a fonte deste dado (Pág. 400). Pra quem se interessa pelo assunto, o livro “A Guerra dos Chips – a batalha pela tecnologia que move o mundo”, de Chris Miller, é leitura obrigatória. O livro é denso mas vale o esforço.
- [3]
- Fique antenado que tem algo mais rolando.
- [4]
- Inteligência Artificial significa dispor de uma infinidade de dados, submetido a um algoritmo gerado autonomamente – de preferência – a partir da análise do respectivo volume de dados e, para tanto, faz-se necessário um estupendo poder de processamento digital. O resto que tem por aí é pura jogada de marketing.
- [5]
- Não há conotação de gênero, o que conta é a performance do personagem.

“O número de transistores nos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo custo, a cada dois anos.”
– Lei de Moore – 1965
“Sessa foi o matemático que inventou o jogo de xadrez. Ensinou ao príncipe indiano que maravilhado, disse-lhe: peça o que quiser que esteja dentro de minhas possibilidades.
O matemático pensou … pediu apenas um grão de trigo, na primeira casa do tabuleiro, duas para a segunda casa, quatro para a terceira, e assim por diante, dobrando a quantidade até chegar na sexagésima quarta casa.
O príncipe de início achou o pedido simplório, quase ofensivo; até calcular o número de grãos e se dá conta da enrascada que Sessa o colocou.”
– Lenda do xadrez
Interessante ficar de olho no microcontrolador BlueMacaw.
Se liga neste link: https://sict.rs.gov.br/semicondutores-rs

Sim, a história de desenhar uma cidade num chip pareceu exagero. Pois então, dê uma olhada neste link, que mostra num microscópio uma singela parte de uma EEPROM de 1989. Ou ainda, vídeo_1, vídeo_2 e vídeo_3 que descrevem por inteiro a produção de um chip.